"O imaginário não é a irrealidade. Todo imaginário está destinado a criar o seu mundo. Cuidar do imaginário não é, portanto, um dever separado da política, é o foco da ação contemporânea."

PETER PÁL PELBART



23 de março de 2011

Movimento de Rua


Gambiarra do grupo Elenco de Ouro ( Foto: Emmanuel Peixer)
Apesar de ainda pouco comentado e discutido, os trabalhos cênicos que ocupam o espaço urbano estão, há algum tempo, se infiltrando em Curitiba. Dentre os que integram o Movimento de Teatro de Grupo, o Elenco de Ouro foi um dos primeiros. Desde 2000, o coletivo vem experimentado possibilidades de encenação fora do palco italiano. Atualmente, suas intervenções se caracterizam por promoverem choques no cotidiano da cidade, convidando seus “receptores” à interferência, no limite entre teatro e performance. É o caso de Gambiarra, um de seus trabalhos mais recentes, iniciado no Chile para só depois vir a nossa cidade. A obra utiliza o improviso constante para fazer referência ao “jeitinho brasileiro”. Cinco atuantes interferem no cotidiano dos espaços públicos quebrando a previsibilidade destes ambientes. Cada um desenvolve um percurso e um formato diferente, a partir de uma pesquisa própria em torno da noção de gambiarra e de um estudo anterior sobre rotina do espaço. Atualmente, as intervenções se desenvolvem em terminais de transporte público, um local de passagem que possibilita destituir a relação com público de qualquer identidade, efemeridade que abre lacunas para serem preenchidas com relações mais criativas. Ao agir em espaços públicos e lançar-se em ambientes não identidários, o Elenco de Ouro busca uma obra que não defina previamente – que relativize - a posição do artista, da arte e do espectador, nível de abertura comumente reconhecido em ações performáticas.
Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel em 2004

A  Processo Multiartes é outra interessada nas possibilidades que performances geram no espaço público e interfere no cotidiano do espectador para chamar sua atenção para algumas questões. Em 2004, o grupo realizou Feliz 11 de Setembro na Boca Maldita: às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de setembro daquele ano, 11 artistas se encontraram na boca maldita para lembrar o atentado enquanto faziam a barba ao som do coro dos Escravos Hebreus, de Verdi; no final, lançavam aviões e idéias no ar. No mesmo ano, o grupo apresentou Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel na véspera de Natal no calçadão da Rua XV de Novembro. Na performance, um grupo de Papai Noéis faziam uma passeata no centro de Curitiba reivindicando melhores condições trabalhistas; ao anoitecer, eram enterrados em frente ao Mc Donalds ao som de seu testamento.

Los Juegos Provechosos (2008) da Cia Silenciosa 
Desde sua criação em 2002, a Companhia Silenciosa já desenvolveu uma série de trabalhos na rua, muitos deles, assim como a Processo, com um foco maior na ação intervencionista. Sua última obra em espaço público, Los Juegos Provechosos de 2008, se desenrolava em três locais diferentes: começava no hall do teatro com o encenador Henrique Saidel inflando bonecos e dando corda em brinquedos, movia-se para a rua onde duas atrizes chegavam em um carro de som alto e lavavam-no sensualmente e terminava em nível altíssimo, com o rapel de outra atriz pela fachada de um prédio histórico ao som de um manifesto contra o relativismo.


Outra companhia dada à ocupação em larga escala espacial é a ACRUEL. Seu mais recente trabalho, Espaço Outro, é realizado em amplas praças públicas nas quais todo o espaço é utilizado. O espectador é convidado a entrar em uma grande caixa de acrílico transparente onde uma narração em off orienta para onde olhar. As cenas acontecem fora, espalhadas pela praça. Algumas são pequenas e infiltradas entre as pessoas comuns, outras intervêm no movimento natural do lugar. Somente aqueles dentro da caixa sabem tudo o que está acontecendo e observam a percepção espontânea dos passantes. A dramaturgia de Espaço Outro foi construída com base na observação do comportamento das pessoas em diferentes locais públicos. O interesse na praça veio de sua combinação de ociosidade e intensa transitoriedade, o que lhe possibilita ter frações das mais diversas atividades da cidade. A caixa é um ponto de observação deste espaço e das histórias que ele conta, porém o caráter fictício da obra transforma o significado de tudo ao redor. Este jogo entre realidade e representação teatral permite novas visões sobre o ambiente, mais atentas e sensíveis.
Espaço Outro na praça Santos Andrade (foto: Rosano Mauro Jr)

A CiaSenhas foi para a rua no ano passado, quando decidiu que de alguma forma iria se relacionar com o (ou se apresentar ao) comércio e a escola próximos a sua sede. Foi assim que se estabeleceu a estrutura do espetáculo Homem Piano, que começava na rua e movia-se para a sede passando por seus três andares. Como o grupo nunca havia experimentado o espaço público como discurso, achou necessário partir de fora para dentro (da rua para a sede) e iniciou o projeto a céu aberto. Esta etapa, que tinha a intenção de coletar memórias, acontecia com um tapete branco esticado em uma praça e um microfone aberto ao público conectado a fones de ouvido no performer; durante 1h20 o homem ficava ali parado disposto a ouvir as 'Memórias Alheias'. (Vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=2Zdr8toSBkY). A ação, a princípio um apêndice do projeto, se pretende uma performance independente intitulada Homem sem memória aceita memórias alheias. Depois de coletado este material, a Cia voltou a ensaiar em sua sede. “Aos poucos viramos assunto do cotidiano, a música Pégasus de Jorge Mautner cantada no inicio do espetáculo encontrou eco nos funcionários e alunos do supletivo, na dona da confeitaria, no Luciano (filho dos donos da loja libanesa). Estes fizeram parte de toda a história do espetáculo e público cativo das apresentações do espetáculo, e das ações posteriores da CiaSenhas (como o Cabaré Gilda)”. Neste ano, a rua se mantém um objeto de desejo do coletivo no trabalho Narrativas Urbanas em Terras Sem Lei, que será desenvolvido em parceria com o grupo Argonautas de São Paulo. “Continuamos ‘rueiros’; ainda em início de processo”.
Apresentação de Homem Piano da Cia Senhas

Ao contrário da Cia Senhas, a Arte da Comédia trabalha na rua, e apenas na rua, desde o início.  Existente desde 2006, o grupo centra sua pesquisa na Commedia dell’Arte, base que originou os espetáculos As Calcinhas da Flor; Aconteceu no Brasil, enquanto o ônibus não vem; Aconteceu na noite de Natal e, o mais recente, As Espertezas de Arlequim, todos realizados na rua. Este último procura um retorno a original Commedia dell’Arte, a mesma que poderia ser vista numa praça européia do século XVI. Nela, não existe um texto pré-definido, apenas um canovaccio (um roteiro amplo) desenvolvido numa serie interminável de lazzi e gags, acrobacias e brincadeiras que em vários momentos envolvem o público, onde o que aparece é a habilidade dos atores e atrizes. O espetáculo tem figurinos típicos da Commedia dell’Arte, as máscaras são construídas em couro através de uma antiga técnica italiana, a original deste estilo teatral. Esta procura de "fidelidade" ao estilo determina a necessidade dos atores e atrizes de apreender solidamente as técnicas de construção das personagens clássicas. Com este conhecimento, qualquer sucessivo trabalho de criação de personagens originais encontra um sólido fundamento e possibilita ao ator a utilização de inúmeros recursos técnicos e de repertorio que lhe permite uma verdadeira liberdade criativa.

Alguns destes espetáculos ainda estão ou voltarão a estar em cartaz. Com certeza, outros surgirão. Já é tempo dos trabalhos de rua ganharem espaço nas discussões teatrais da nossa cidade. 

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