"O imaginário não é a irrealidade. Todo imaginário está destinado a criar o seu mundo. Cuidar do imaginário não é, portanto, um dever separado da política, é o foco da ação contemporânea."

PETER PÁL PELBART



4 de abril de 2011

As veias abertas do teatro


Paulo José observa atuação dos atores de Murro..., todos paranaenses
Ensaio aberto de Murro em Ponta de Faca é opção diferente neste Festival, com direção de Paulo José

31/03/2011 00:05 Helena Carnieri Gazeta do Povo
Se muitas peças têm pré-estreia nacional no Festival de Curitiba, Murro em Ponta de Faca dá um passo além e mostra um pouco do processo de criação ao público, com ensaios abertos a partir de hoje. A peça é um clássico do teatro político, escrita por Augusto Boal e dirigida pelo ator e diretor Paulo José em 1978. A atuação naquele ano foi da companhia de Othon Bastos.
Mais de 30 anos depois, Paulo José retoma o espetáculo em homenagem ao amigo, morto em 2009 e com quem trabalhou no Teatro de Arena de São Paulo. “Éramos muito íntimos”, conta.
“Ele prezava muito esse texto. Montei quando ele estava no exílio, e é muito emocionante retomar, porque eu contava a ele o que estava acontecendo por telefone, mas ele não podia ver. Quando voltou ao Brasil, a peça tinha saído de cartaz”, rememora Paulo.
O convite para retornar a Murro... veio da atriz paranaense Nena Inoue. A ideia surgiu de uma leitura dramática do texto de Boal, dentro de um projeto de resgate de obras dos anos 70. “Era uma pesquisa sobre o período da ditadura, período que foi um desastre e hoje é tratado como se não tivesse acontecido”, ela disse em entrevista à Gazeta do Povo.


Após vencer o receio inicial (“pensei que ele não iria nem olhar para a nossa cara”), Nena propôs o trabalho e Paulo José topou. Como só começaram os ensaios em meados de fevereiro, decidiram trazer a peça ao Fringe no formato de ensaio aberto, por receio de não terminar a tempo. Ela está praticamente pronta, mas de qualquer forma o público deverá ver uma ou outra intervenção do diretor entre as falas dos atores, todos paranaenses (Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Erica Migon, Sidy Correa, Abilio Ramos e Nena Inoue).


“O público adora ver como as coisas são feitas, aplaude quando o ator erra em cena. E queremos compartilhar um pouco do processo de criação”, diz Nena. Ela conta que sempre tenta abrir ensaios gerais para o público em seu Espaço Cênico, o que já ocorria quando hospedou o Ateliê de Criação Teatral (ACT).


“Acho importante ver diretor e ator interferirem no espetáculo, mas isso pode acontecer ou não, depende do ensaio”, completa. “Tem ensaio que começa com a embocadura errada”, diz Paulo José. O público, claro, vai torcer para que isso aconteça e poder ver um diretor desse calibre em ação.


Adaptação


Em Murro..., o retrato da vida dos exilados políticos brasileiros foi feito com bom humor por Boal, ele próprio obrigado a sair do país durante vários anos. De volta ao Brasil, o dramaturgo fundou o Teatro do Oprimido, no Rio de Janeiro, trabalhando com atores e não atores e fundando uma corrente inspirada em Paulo Freire que fez escola pelo mundo.


Para a montagem deste ano, Paulo fez poucas adaptações. Um exemplo é um discurso de Pinochet ouvido pelo rádio durante a peça. E a canção “Murro em Ponta de Faca”, escrita por Chico Buarque em parceria com Augusto Boal e nunca gravada, foi substituída pela “Canção do Subdesenvolvido” (de Carlos Lyra e Chico de Assis). A troca foi necessária porque ninguém lembra mais da melodia, apesar de que Chico, ao ouvir um trecho da letra (“Não sei se fujo ou persigo”), teria dito: “Isso parece coisa minha”.


Em ação


Depois de abrir o ensaio ao público em Curitiba, Murro em Ponta de Faca tem estreia no dia 15 de abril no Sesc Copacabana, onde fica até 8 de maio.


Paulo José também atua na nova novela das 19 horas da Rede Globo, Morde e Assopra. Depois de sua investida no cinema intimista de Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, fez O Palhaço, de Selton Mello, com estreia prevista para maio. E diz estar aberto para novos projetos da Sutil. “Se me chamarem, estou às ordens.”

1 comentários:

Felipe Cruz disse...

A sincronia heterogênea da praxis na cena contemporânea adverte a mensagem onírica e sincrética de poder e revolução no cotidiano. É necessário diluir obviedades concretas, signos neorealistas e possibilidades sistêmicas de complexos obtusos. Entretanto, a causa tende a se desconectar de infortúnios dialéticos predominantes.