"O imaginário não é a irrealidade. Todo imaginário está destinado a criar o seu mundo. Cuidar do imaginário não é, portanto, um dever separado da política, é o foco da ação contemporânea."

PETER PÁL PELBART



11 de abril de 2011

Cerca de 200 mil pessoas passam pelo Festival de Curitiba







As atrizes Mariana Blanco (à esq.) e Marina Arthuzzi em cena da peça "Sobre Dinossauros Galinhas e Dragões" - foto Lenise Pinheiro

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A mostra paralela do Festival de Curitiba, o Fringe, ainda acontece em clima de loteria, com mais de 300 espetáculos de todas as regiões do país. Só que, nesta edição do evento que foi encerrado ontem, o espectador teve mais chances de apostar nos números certos.

O crescimento de curadorias dentro da programação deu norte para os cerca de 200 mil espectadores que passaram pelo festival. Oito mostras se firmaram como pontos de encontro. Duas delas foram organizadas pelo próprio festival; outras seis partiram da iniciativa de artistas da capital paranaense.

"Murro em Ponta de Faca", um das peças principais desta edição, com direção de Paulo José, foi apresentada dentro da mostra Novela de Todos os Cantos.

"Oxigênio", da Companhia Brasileira de Teatro, destacou-se na programação de Na Companhia de.... E, com menos êxito de público, a mostra Conexão Roosevelt apresentou artistas do circuito praça Roosevelt, da cidade de São Paulo.

REFERÊNCIAS AO TRASH

Também houve um lado B interessante, dentro do próprio Fringe. A companhia Acruel, por exemplo, confinou a plateia em um cubo de acrílico, com lotação para 20 pessoas, em uma praça no centro da cidade.

Lá dentro, uma voz orientava os espectadores a observar a representação no espaço público, com um desfecho delirante, em que o elenco dançava a coreografia do filme "Dirty Dance" ao som do hit "The Time Of My Life".

As referências ao universo pop dos enlatados e dos ícones trash dos anos 80 saltaram de todos os cantos.

Foi o caso, por exemplo, da colagem de textos do espetáculo "Sobre Dinossauros, Galinhas e Dragões", espécie de comédia em tom existencial, em que uma das três atrizes da companhia mineira Primeira Campainha implorava para a Xuxa: "...me leva na sua nave".

AO GOSTO DO PÚBLICO

"Achei a programação do Fringe, neste ano, muito mais interessante do que a da mostra oficial", disse a cientista política Milena Buzzetti, 26, ao deixar uma sessão lotada da mostra Novos Repertórios, que reuniu companhias curitibanas.

Buzzetti se encaixa na principal fatia de público do festival. Segundo pesquisa da Secretaria de Turismo de Curitiba, o evento é mais frequentado por mulheres jovens, com superior completo e incompleto.

Os resultados animaram alguns curadores. Segundo o dramaturgo e diretor Marcos Damaceno, organizador da Mostra Outros Lugares, pensa-se na possibilidade de levar os projetos curatoriais para outras cidades. "Tivemos resultados muito felizes, principalmente de público, e estamos discutindo a ida para São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte", afirma.

O jornalista GUSTAVO FIORATTI viajou a convite do festival

4 de abril de 2011

As veias abertas do teatro


Paulo José observa atuação dos atores de Murro..., todos paranaenses
Ensaio aberto de Murro em Ponta de Faca é opção diferente neste Festival, com direção de Paulo José

31/03/2011 00:05 Helena Carnieri Gazeta do Povo
Se muitas peças têm pré-estreia nacional no Festival de Curitiba, Murro em Ponta de Faca dá um passo além e mostra um pouco do processo de criação ao público, com ensaios abertos a partir de hoje. A peça é um clássico do teatro político, escrita por Augusto Boal e dirigida pelo ator e diretor Paulo José em 1978. A atuação naquele ano foi da companhia de Othon Bastos.
Mais de 30 anos depois, Paulo José retoma o espetáculo em homenagem ao amigo, morto em 2009 e com quem trabalhou no Teatro de Arena de São Paulo. “Éramos muito íntimos”, conta.
“Ele prezava muito esse texto. Montei quando ele estava no exílio, e é muito emocionante retomar, porque eu contava a ele o que estava acontecendo por telefone, mas ele não podia ver. Quando voltou ao Brasil, a peça tinha saído de cartaz”, rememora Paulo.
O convite para retornar a Murro... veio da atriz paranaense Nena Inoue. A ideia surgiu de uma leitura dramática do texto de Boal, dentro de um projeto de resgate de obras dos anos 70. “Era uma pesquisa sobre o período da ditadura, período que foi um desastre e hoje é tratado como se não tivesse acontecido”, ela disse em entrevista à Gazeta do Povo.


Após vencer o receio inicial (“pensei que ele não iria nem olhar para a nossa cara”), Nena propôs o trabalho e Paulo José topou. Como só começaram os ensaios em meados de fevereiro, decidiram trazer a peça ao Fringe no formato de ensaio aberto, por receio de não terminar a tempo. Ela está praticamente pronta, mas de qualquer forma o público deverá ver uma ou outra intervenção do diretor entre as falas dos atores, todos paranaenses (Gabriel Gorosito, Laura Haddad, Erica Migon, Sidy Correa, Abilio Ramos e Nena Inoue).


“O público adora ver como as coisas são feitas, aplaude quando o ator erra em cena. E queremos compartilhar um pouco do processo de criação”, diz Nena. Ela conta que sempre tenta abrir ensaios gerais para o público em seu Espaço Cênico, o que já ocorria quando hospedou o Ateliê de Criação Teatral (ACT).


“Acho importante ver diretor e ator interferirem no espetáculo, mas isso pode acontecer ou não, depende do ensaio”, completa. “Tem ensaio que começa com a embocadura errada”, diz Paulo José. O público, claro, vai torcer para que isso aconteça e poder ver um diretor desse calibre em ação.


Adaptação


Em Murro..., o retrato da vida dos exilados políticos brasileiros foi feito com bom humor por Boal, ele próprio obrigado a sair do país durante vários anos. De volta ao Brasil, o dramaturgo fundou o Teatro do Oprimido, no Rio de Janeiro, trabalhando com atores e não atores e fundando uma corrente inspirada em Paulo Freire que fez escola pelo mundo.


Para a montagem deste ano, Paulo fez poucas adaptações. Um exemplo é um discurso de Pinochet ouvido pelo rádio durante a peça. E a canção “Murro em Ponta de Faca”, escrita por Chico Buarque em parceria com Augusto Boal e nunca gravada, foi substituída pela “Canção do Subdesenvolvido” (de Carlos Lyra e Chico de Assis). A troca foi necessária porque ninguém lembra mais da melodia, apesar de que Chico, ao ouvir um trecho da letra (“Não sei se fujo ou persigo”), teria dito: “Isso parece coisa minha”.


Em ação


Depois de abrir o ensaio ao público em Curitiba, Murro em Ponta de Faca tem estreia no dia 15 de abril no Sesc Copacabana, onde fica até 8 de maio.


Paulo José também atua na nova novela das 19 horas da Rede Globo, Morde e Assopra. Depois de sua investida no cinema intimista de Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, fez O Palhaço, de Selton Mello, com estreia prevista para maio. E diz estar aberto para novos projetos da Sutil. “Se me chamarem, estou às ordens.”

1 de abril de 2011

Em busca de ousadia e experimentação

Elenize Dezgeniski / Divulgação







Oxigênio, da Cia Brasileiro de Teatro: criação de um tempo real, de um momento presente


Debate - Artes cênicas



Parte dos espetáculos locais presentes na programação do Festival de Curitiba 2011 atesta que a produção curitibana está mais próxima dos percursos criativos do chamado teatro contemporâneo


Publicado em 26/03/2011 Luciana Romagnolli, especial para a Gazeta do Povo



Algumas estreias locais despertam interesse, sem dúvida. Mas é sobretudo da soma de peças da temporada passada que se faz a participação curitibana no Festival de Curitiba. Cria-se, por poucos dias, um momento privilegiado para observar em conjunto a produção da cidade e pensar sobre ela – olhando um pouco em retrospectiva. O que se vê é o envolvimento crescente de artistas com as preocupações e os procedimentos do teatro contemporâneo.


Dito isso, não se pode esconder que a própria ideia de teatro contemporâneo não é das menos polêmicas. O termo fica rarefeito diante da variedade de vertentes que designa. Mas, essencialmente, invoca a quebra de antigas convenções teatrais. Às vezes, no limite do hibridismo com outras artes. Quase sempre, dando aos elementos da encenação – luz, som, cenário, objetos – novos poderes diante da velha dominação do texto.







CiaSenhas vai apresentar Homem Piano – Uma Instalação para a Memória no Fringe


Sobretudo, trata-se de um teatro que troca a ilusão de reproduzir a realidade pelo autoquestionamento sobre seus modos de fazer.

Para o diretor Marcos Damaceno, em Curitiba, “há alguns grupos que honram o teatro investigativo e representam bem essa inquietação, na busca de novas linguagens, apesar de serem poucos os que apresentam real inovação ou avanço em termos estéticos”. Ele coordena o Núcleo de Estudos de Dramaturgia do Sesi/PR e reapresenta o espetáculo Antes do Fim durante o Fringe, na Mostra Outros Lugares – um dos redutos da nova dramaturgia curitibana.


“Não acho que a produção curitibana pense sobre o teatro contemporâneo”, avalia também a atriz Andrea Obrecht, que encena, com a Pausa Companhia, o Roteiro Escrito com a Pena da Galhofa e a Tinta do Inconformismo. “As ideias desse teatro permeiam aqui e ali nas montagens, mas não significa que reflitam sobre a contemporaneidade. E me parece que, para se fazer teatro contemporâneo, é preciso refletir sobre as opções, tem a ver com a atitude do artista.”


A cena contemporânea em Curitiba pode ainda ser incipiente, mas progride. “Vejo que cada vez mais artistas e público tentam se encontrar no ‘desconhecido’ que o teatro pode proporcionar”, comenta Sueli Araújo, diretora da CiaSenhas, que voltará ao cartaz com Homem Piano – Uma Instalação para a Memória.


“A julgar pelos trabalhos da Companhia Silenciosa, Heliogábalus, CiaSenhas, Cia. Brasileira, Obragem, Marcos Damaceno, 1801, Armadilha, Teatro de Breque, Pausa, Transitória, Súbita, Acruel, Subjétil e Couve-flor – nomes que lembrei de cabeça agora –, não há dúvida, temos uma cena com foco no contemporâneo admirável”, conclui Luiz Felipe Leprevost, autor de duas peças que estrearão no Fringe, O Butô de Mick Jagger, dirigida por ele mesmo, e Hieronymus nas Masmorras, em leitura comandada por Roberto Alvim.


“Cada uma dessas companhias tem pesquisa própria e se empenha em não permitir que o teatro seja um museu tomado por tédio e mofo. Apostam que a comunhão em tempo presente, numa época em que somos multidões de sozinhos, auxilie na tentativa de se devolver a humanidade ao humano”, completa.


Presente


Na linha de frente, está a Cia. Brasileira, do diretor Marcio Abreu. Ele concebe o teatro justamente como o lugar da “ação compartilhada” e da “ressignificação do humano”. De “dentro da fogueira”, como diz, Abreu aponta duas questões inescapáveis hoje. Repensar modelos pré-existentes de escrita para teatro é uma delas.


A outra diz respeito à presença do ator em relação ao público, que se afasta da noção de representação (a reprodução de uma realidade ausente) para assumir o frescor da apresentação. “Como mobilizar o ator e os elementos que compõem a dramaturgia para convergir na criação de um tempo real, de um momento presente, com todas as suas armadilhas e dificuldades?”, questiona-se o diretor, e tenta responder mais uma vez em Oxigênio.


Também é a dimensão criativa dessa “poética do presente” o foco do interesse da CiaSenhas, na tensão entre a memória e a intuição do futuro. A companhia avançou notavelmente em sua pesquisa de linguagem com Homem Piano. “O espetáculo nos permitiu desenvolver procedimentos que há algum tempo vinham nos provocando, como a maior participação da plateia na construção da escritura cênica, o desvendamento do espaço de atuação e a radicalização das instâncias ator e performer”, diz a diretora. Embora seja um solo do ator Luiz Bertazzo, a montagem se realiza em dependência do público, convidado a se deslocar para o interior da sede do grupo e a compartilhar as próprias memórias.


Narradores


A performatividade está no centro desse teatro. Muitas vezes, associada a outro traço marcante, a narração, substituindo o ato de representar pelo de contar. “Parece que a narrativização da cena é um fenômeno mundial”, diz Sueli. “Sua premissa é a experiência compartilhada. Ela mobiliza imagens criadas e situações reais, verdade e ficção.”A tradição curitibana de contistas poderia ser razão para que tal prática ganhe espaço nos palcos curitibanos, especula a diretora.


A palavra, afinal de contas, não perdeu espaço. Seu modo de uso na encenação, na verdade, se ampliou. “Há conceitos do teatro contemporâneo que se alinham ao que venho explorando, como o foco na palavra em si, como ação e elemento autônomo da criação, em detrimento da palavra como ferramenta para criação de personagem, trama, diálogos etc”, compara Damaceno. Em Antes do Fim, isso se traduz no poder “encantatório” da palavra, acentuando sua musicalidade e seus estranhamentos.


Ao escrever O Butô Mick Jagger, também Leprevost alargou o uso corrente da palavra. “Desenhou” o texto espalhando pela página as palavras tais quais corpos dançantes. O espetáculo realiza um casamento incomum do teatro japonês com a cultura pop – bem, não tão incomum em se tratando de teatro contemporâneo.


“Há uma apropriação explícita tanto do Butô, de seus fluxos e suas contorções ritualísticas de acesso ao reino dos mortos, como também do universo pop sucateado que se vê no rock dito clássico e em dois de seus ícones, Mick Jagger e Kurt Cobain”, adianta.

23 de março de 2011

Movimento de Rua


Gambiarra do grupo Elenco de Ouro ( Foto: Emmanuel Peixer)
Apesar de ainda pouco comentado e discutido, os trabalhos cênicos que ocupam o espaço urbano estão, há algum tempo, se infiltrando em Curitiba. Dentre os que integram o Movimento de Teatro de Grupo, o Elenco de Ouro foi um dos primeiros. Desde 2000, o coletivo vem experimentado possibilidades de encenação fora do palco italiano. Atualmente, suas intervenções se caracterizam por promoverem choques no cotidiano da cidade, convidando seus “receptores” à interferência, no limite entre teatro e performance. É o caso de Gambiarra, um de seus trabalhos mais recentes, iniciado no Chile para só depois vir a nossa cidade. A obra utiliza o improviso constante para fazer referência ao “jeitinho brasileiro”. Cinco atuantes interferem no cotidiano dos espaços públicos quebrando a previsibilidade destes ambientes. Cada um desenvolve um percurso e um formato diferente, a partir de uma pesquisa própria em torno da noção de gambiarra e de um estudo anterior sobre rotina do espaço. Atualmente, as intervenções se desenvolvem em terminais de transporte público, um local de passagem que possibilita destituir a relação com público de qualquer identidade, efemeridade que abre lacunas para serem preenchidas com relações mais criativas. Ao agir em espaços públicos e lançar-se em ambientes não identidários, o Elenco de Ouro busca uma obra que não defina previamente – que relativize - a posição do artista, da arte e do espectador, nível de abertura comumente reconhecido em ações performáticas.
Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel em 2004

A  Processo Multiartes é outra interessada nas possibilidades que performances geram no espaço público e interfere no cotidiano do espectador para chamar sua atenção para algumas questões. Em 2004, o grupo realizou Feliz 11 de Setembro na Boca Maldita: às 11 horas e 11 minutos do dia 11 de setembro daquele ano, 11 artistas se encontraram na boca maldita para lembrar o atentado enquanto faziam a barba ao som do coro dos Escravos Hebreus, de Verdi; no final, lançavam aviões e idéias no ar. No mesmo ano, o grupo apresentou Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel na véspera de Natal no calçadão da Rua XV de Novembro. Na performance, um grupo de Papai Noéis faziam uma passeata no centro de Curitiba reivindicando melhores condições trabalhistas; ao anoitecer, eram enterrados em frente ao Mc Donalds ao som de seu testamento.

Los Juegos Provechosos (2008) da Cia Silenciosa 
Desde sua criação em 2002, a Companhia Silenciosa já desenvolveu uma série de trabalhos na rua, muitos deles, assim como a Processo, com um foco maior na ação intervencionista. Sua última obra em espaço público, Los Juegos Provechosos de 2008, se desenrolava em três locais diferentes: começava no hall do teatro com o encenador Henrique Saidel inflando bonecos e dando corda em brinquedos, movia-se para a rua onde duas atrizes chegavam em um carro de som alto e lavavam-no sensualmente e terminava em nível altíssimo, com o rapel de outra atriz pela fachada de um prédio histórico ao som de um manifesto contra o relativismo.


Outra companhia dada à ocupação em larga escala espacial é a ACRUEL. Seu mais recente trabalho, Espaço Outro, é realizado em amplas praças públicas nas quais todo o espaço é utilizado. O espectador é convidado a entrar em uma grande caixa de acrílico transparente onde uma narração em off orienta para onde olhar. As cenas acontecem fora, espalhadas pela praça. Algumas são pequenas e infiltradas entre as pessoas comuns, outras intervêm no movimento natural do lugar. Somente aqueles dentro da caixa sabem tudo o que está acontecendo e observam a percepção espontânea dos passantes. A dramaturgia de Espaço Outro foi construída com base na observação do comportamento das pessoas em diferentes locais públicos. O interesse na praça veio de sua combinação de ociosidade e intensa transitoriedade, o que lhe possibilita ter frações das mais diversas atividades da cidade. A caixa é um ponto de observação deste espaço e das histórias que ele conta, porém o caráter fictício da obra transforma o significado de tudo ao redor. Este jogo entre realidade e representação teatral permite novas visões sobre o ambiente, mais atentas e sensíveis.
Espaço Outro na praça Santos Andrade (foto: Rosano Mauro Jr)

A CiaSenhas foi para a rua no ano passado, quando decidiu que de alguma forma iria se relacionar com o (ou se apresentar ao) comércio e a escola próximos a sua sede. Foi assim que se estabeleceu a estrutura do espetáculo Homem Piano, que começava na rua e movia-se para a sede passando por seus três andares. Como o grupo nunca havia experimentado o espaço público como discurso, achou necessário partir de fora para dentro (da rua para a sede) e iniciou o projeto a céu aberto. Esta etapa, que tinha a intenção de coletar memórias, acontecia com um tapete branco esticado em uma praça e um microfone aberto ao público conectado a fones de ouvido no performer; durante 1h20 o homem ficava ali parado disposto a ouvir as 'Memórias Alheias'. (Vídeo - http://www.youtube.com/watch?v=2Zdr8toSBkY). A ação, a princípio um apêndice do projeto, se pretende uma performance independente intitulada Homem sem memória aceita memórias alheias. Depois de coletado este material, a Cia voltou a ensaiar em sua sede. “Aos poucos viramos assunto do cotidiano, a música Pégasus de Jorge Mautner cantada no inicio do espetáculo encontrou eco nos funcionários e alunos do supletivo, na dona da confeitaria, no Luciano (filho dos donos da loja libanesa). Estes fizeram parte de toda a história do espetáculo e público cativo das apresentações do espetáculo, e das ações posteriores da CiaSenhas (como o Cabaré Gilda)”. Neste ano, a rua se mantém um objeto de desejo do coletivo no trabalho Narrativas Urbanas em Terras Sem Lei, que será desenvolvido em parceria com o grupo Argonautas de São Paulo. “Continuamos ‘rueiros’; ainda em início de processo”.
Apresentação de Homem Piano da Cia Senhas

Ao contrário da Cia Senhas, a Arte da Comédia trabalha na rua, e apenas na rua, desde o início.  Existente desde 2006, o grupo centra sua pesquisa na Commedia dell’Arte, base que originou os espetáculos As Calcinhas da Flor; Aconteceu no Brasil, enquanto o ônibus não vem; Aconteceu na noite de Natal e, o mais recente, As Espertezas de Arlequim, todos realizados na rua. Este último procura um retorno a original Commedia dell’Arte, a mesma que poderia ser vista numa praça européia do século XVI. Nela, não existe um texto pré-definido, apenas um canovaccio (um roteiro amplo) desenvolvido numa serie interminável de lazzi e gags, acrobacias e brincadeiras que em vários momentos envolvem o público, onde o que aparece é a habilidade dos atores e atrizes. O espetáculo tem figurinos típicos da Commedia dell’Arte, as máscaras são construídas em couro através de uma antiga técnica italiana, a original deste estilo teatral. Esta procura de "fidelidade" ao estilo determina a necessidade dos atores e atrizes de apreender solidamente as técnicas de construção das personagens clássicas. Com este conhecimento, qualquer sucessivo trabalho de criação de personagens originais encontra um sólido fundamento e possibilita ao ator a utilização de inúmeros recursos técnicos e de repertorio que lhe permite uma verdadeira liberdade criativa.

Alguns destes espetáculos ainda estão ou voltarão a estar em cartaz. Com certeza, outros surgirão. Já é tempo dos trabalhos de rua ganharem espaço nas discussões teatrais da nossa cidade. 

10 de março de 2011

Caminhos da Arte e da Cultura no Paraná

SEGUNDA FEIRA - dia 14 de março às 20h30,

acontece, no TUCA da PUCPR a mesa redonda “Caminhos da Arte e da Cultura no Paraná”.


O evento conta com a presença do ator e dramaturgo Edson Bueno,

do organizador do Festival de Teatro de Curitiba, Leandro Knopfholz,

da presidente da Fundação Cultural Teatro Guaíra, Monica Rischbieter,

da coordenadora de assuntos culturais da PUCPR, Maria Comninos e da

coordenadora do curso de Sociologia da PUCPR, Sandra Mattar.

Mediado pelo diretor do Grupo de Teatro Tanahora/PUCPR, Laercio Ruffa, o debate é gratuito e toda a comunidade pode participar.

22 de fevereiro de 2011

Grupos do Movimento participam do RUMOS ITAU CULTURAL
















Grupos fazem ponte aérea criativa
1.º Rumos Teatro do Itaú Cultural apoia projetos da Cia. Brasileira, CiaSenhas e Cia. Silenciosa
Publicado na Gazeta do Povo - Caderno G em 08/11/2010 LUCIANA ROMAGNOLLI

Um grupo de teatro do Rio Grande do Norte e outro do Rio Grande do Sul marcam dois encontros, tendo o compromisso de apresentar, ao fim de alguns meses de pesquisa, os resultados criativos do jeito que preferirem: performance, cena, texto, debate, tanto faz. Aproximar dessa maneira livre artistas de cantos distintos do país, provocando-os a trocar experiências, é a ideia condutora do 1.º Rumos Teatro, promovido pelo Itaú Cultural.
Alguns encontros não exigirão viagens tão longas quanto a dos potiguares do Clowns de Shakes­peare até os gaúchos do Ói Nóis Aqui Traveiz. É o caso da promissora ponte aérea entre a Cia. dos Atores, carioca, e Os Fofos Ence­nam, paulistas. Rio de Janeiro e São Paulo, aliás, são campeões entre os 24 selecionados: foram quatro grupos de cada estado.
O Paraná ficou logo atrás, com três eleitos. A CiaSenhas vai a São Paulo trabalhar com o Núcleo Argonautas. A Silenciosa fica por perto, numa parceria com o grupo catarinense ERRO. E a Cia. Brasileira de Teatro retorna a Belo Horizonte para criar com o Espanca!.
Como funciona
Três companhias curitibanas foram selecionadas para o Rumos Teatro. Saiba mais sobre o programa do Instituto Itaú Cultural
Dois em um - A proposta do edital é promover o intercâmbio entre dois grupos teatrais de origens distintas, incluindo todas as regiões do país. Nesta primeira edição, foram inscritos 165 projetos (por 330 grupos, organizados em duplas). Pretendia-se eleger dez, mas a qualidade e a variedade convenceu o instituto a apoiar 12 deles.
Passagens - Cada grupo selecionado vai receber entre R$ 56 mil e R$ 88 mil, de acordo com os custos de passagens aéreas, para pesquisa e encontros (no mínimo, dois presenciais).
Fim - O resultado dos encontros será apresentado na mostra do Itaú Cultural, no segundo semestre de 2011. Não há regra quanto ao formato final, pode ser uma montagem, mas também um texto ou debate, respeitando as características de cada pesquisa. Até lá, as duplas devem manter no ar um blog do processo criativo, ao menos por seis meses.
Parcerias -
Caixa do Elefante (RS) e Grupo Pequod (RJ) - Núcleo Argonautas (SP) e CiaSenhas (PR) - Celeiro das Antas (DF) e Teatro Experimental da Alta Floresta (MT) - Cia. Silenciosa (PR) e ERRO Grupo (SC) - Cia. Teatro Autônomo (RJ) e Os Irmãos Guimarães (DF) - OPOVOEMPÉ (SP) e Lume (SP) - Espanca! (MG) e Cia. Brasileira de Teatro (PR) - Bagaceira de Teatro (CE) e Coletivo Angu de Teatro (PE) - Cia. dos Atores (RJ) e Os Fofos Encenam (SP) - Clowns de Shakespeare (RN) e Ói Nóis Aqui Traveiz (RS) - Será o Benedito? (RJ) e O Imaginário (RO) - Teatro do Concreto (DF) e Magiluth (PE).
 
A Silenciosa e o ERRO Grupo se conheceram nos chafarizes da cidade, durante o Festival de Curitiba, em 2003, quando a companhia curitibana apresentava a performance Aqui Você Verá. Meses depois, foi a vez de repetir a ação num chafariz do centro de Florianópolis, com a participação do grupo da casa. Desde lá, os artistas dialogam sobre interesses em comum, sobretudo o modo como não distinguem a postura estética da política.
Essa linha de raciocínio se aplica a tornar o espaço público “realmente público”, para que “as pessoas interajam de forma criativa, saindo do contexto pré-programado de ações comuns”, diz Giórgia Conceição, atriz e uma das diretoras da Silenciosa. “A cidade não está acostumada com um fluxo diferente do comum. Isso é estético e político.”
Com o projeto “Salsichão no Boqueirão/Tainha na Prainha”, aprovado pelo Rumos, querem cartografar espaços das duas capitais, registrando o que lá acontece, para pensar a presença cênica, mas também a mediação dessa presença pela tecnologia.
Nas primeiras viagens que planejam, o grupo visitante vai receber do outro um roteiro de lugares a percorrer e ações a realizar. Não necessariam
ente o Boqueirão – o “turismo gastronômico” do título é uma piada, com alguma ironia antropofágica –, mas regiões além do centro. O público primordial será o do próprio local, de preferência sem aviso. Também estudam a possibilidade de transmitir as ações a outros, estes, sim, alertados.

Pacotes
O Espanca! e a Cia. Brasileira de Teatro combinaram trocar pacotes. Literalmente. “Vamos criar uma correspondência material e envi
ar pelo correio, qualquer coisa que tenha um sentido de provocação. O outro grupo terá um tempo para dar uma resposta criativa, com uma cena ou texto ou vídeo”, explica o diretor Márcio Abreu, da Brasileira.
O projeto, batizado de “Um Ou­­­tro Si Mesmo – Troca de Pacotes”, consolida uma aproximação entre o grupo mineiro e o curitibano que já vem de alguns anos. Em 2007, os dois se uniram ao XIX, de São Pau­­lo, para um intercâmbio artístico no ACTO 1, em Belo Horizonte. No mês passado, repetiram o feito, no ACTO 2.
“Tanto o Espanca! quanto nós colocamos o desafio do teatro no campo da dramaturgia: o que dizer, como dizer e a quem dizer”, diz Abreu, justificando a afinidade. Está nos planos dos grupos tentar aproveitar um dos encontros para, além de desenvolver as criações motivadas pela correspondência, trazer a Curitiba o espetáculo Marcha para Zenturo, parceria dos mineiros com o XIX inédita por aqui.

Ficção
A aproximação da CiaSenhas com o Núcleo Argonauta, por sua vez, se deu por uma coincidência de planos. Em Curitiba, a primeira bu
scava notícias de jornal pensando em ficcionalizá-las para “chegar mais próximo da verdade”. Criou, assim, a performance e o espetáculo Homem Piano, pelo projeto Narrativas Urbanas. Em São Paulo, o Núcleo Argonautas vasculhava documentos de arquivos públicos para um projeto semelhante, o Terra Sem Lei, que ocupou escadarias e restaurantes.
Os grupos propuseram ao Ru­­­mos juntar pesquisas. “O foco, tan­­­to dos Argonautas quanto nosso, é a dimensão da narrativa: no corpo, no espaço e no texto”, diz Suely Araújo, diretora da CiaSe­nhas.
Depois de notícias e documentos, as companhias agora pensam que matéria tomarão como ponto de partida para explorar o espaço público. Planejam uma oficina de performance e devem levar adiante o interesse mútuo pelas relações humanas mais íntimas, investigando a dificuldade de se confiar no outro.
No segundo semestre de 2011, quando forem apresentar os resultados ao Itaú Cultural, Argonautas e CiaSenhas pretendem mostrar a pesquisa no estágio em que estiver.“Isso nos desafoga do compromisso de um produto”, diz Suely. “A proposta do Rumos é esse grande laboratório de avanço na própria poética”, sintetiza.